Para que servem as palavras no meio das doações? | Opinião

Recados assim acompanhados de desenhos coloridos e infantis aparecem em cartinhas enviadas junto com doações para vítimas do desastre ambiental do Rio Grande do Sul, que já deixou mais de 160 mortos, meio milhão de desabrigados e um imenso alerta sobre o colapso climático que muitos insistem em negar.

“Eu toda hora encontro cartinhas assim nas sacolas”, disse minha amiga Ana Paula Alcântara, arquiteta e gaúcha por adoção, que me chamou atenção para o assunto e enviou fotos de algumas dessas cartas. Ela, o marido e o filho adolescente moram em Porto Alegre e têm trabalhado como voluntários na triagem das doações e abrigos de cachorros. “Eu leio, choro e coloco num pacote para alguém receber”, conta Ana Paula, autora de “Porto Alegre na palma da mão”, um livro infantil sobre urbanismo para quem ainda não é urbanista.

  • Cinco lições de uma escritora premiada para você

Professores de todo o país levaram a reflexão sobre a tragédia ambiental para dentro da sala de aula, estimulando a leitura de temas afins e a escrita de cartas. A manifestação da solidariedade em palavras registra de forma lírica uma lição que todo mundo deveria estar tirando deste momento. Além do mais, colocar-se no lugar do outro exercita a imaginação. Criança alguma quer passar por isso. Nem criança nem ninguém. Elas sentem a dor da outra pessoa. Imaginam suas casas afundadas em lama. Tudo indo embora, cama, brinquedos, roupas. Essa “troca de lugar” provoca empatia e resgata o encantamento do qual precisamos para narrar a vida.

Em “A crise da narração” (Editora Vozes), Byung-Chul Han, uma das vozes contemporâneas da filosofia, explica que a incapacidade de as pessoas narrarem histórias vem do desencantamento com o mundo. Como exemplo, Han reconta uma história infantil do escritor alemão Paul Maar sobre o menino que não sabia narrar.

— Foto: Ana Paula Alcântara

Era um menino que não conseguia relacionar os acontecimentos com sua interioridade. Suas histórias limitavam-se a uma sequência de eventos desconectados. Não tinham graça, nem emoção. Preocupados, os pais enviam o filho para uma professora de narração. Ele vai parar numa casa pequena de corredores longuíssimos e escadas que somem no infinito. Vive experiências inéditas. Se vê diante de mistérios. Sente medo. O enredo remete um pouco à fantasia de “Alice no país das maravilhas”. O menino volta para casa transformado. “Tenho que contar para vocês. Vocês não vão acreditar no que eu vivi….”, diz, empolgado, para os pais.

A partir daí, menino e história mudam, porque o mundo se torna tão fantástico, argumenta Han, que só resta ao menino recorrer a uma narrativa porque o que lhe aconteceu desafia seu poder de explicação. Narrar, o autor escreve, “é um jogo de luz e sombra, do visível e do invisível, da proximidade e da distância.”

E por que é tão importante saber narrar, você pode perguntar. Porque informações sozinhas, alerta o ensaísta Walter Benjamin, não têm poder de germinação. Elas seguem uma temporalidade diferente, mais efêmera, empobrecendo a experiência individual e a interação com outras pessoas. Por isso a narrativa é mais eficaz para informar do que fatos. Por isso também as narrativas sempre foram instrumentalizadas para manter e criar poder. Infelizmente, toda grande invenção da humanidade se prestou a objetivos perversos. Foi assim com o avião e a fissão nuclear, não seria diferente com a linguagem. E não é por isso que abriremos mão da linguagem, ou do avião que também joga bombas, nem da fissão que as potencializa.

Porque narrando atribuímos um sentido mais amplo à vida, à nossa trajetória e das pessoas que nos cercam. Uma narrativa encantadora, pautada por generosidade e verdade, é o melhor uso que podemos fazer da linguagem. Desenvolver essa sensibilidade nos ajuda a interpretar com mais sofisticação o que nos cerca, e um mundo com sentido é mais acolhedor.

  • A arte de contar a própria história

Quando leio o texto de uma criança dizendo que o lápis rosa doado tem cheiro de frutas e é “o meu preferido”, eu sei que ela costurou sua vida à de outra criança desconhecida numa pequena frase, e sem ter frequentado uma casa de escadas infinitas como a da história de Paul Maar. Essa criança lançou uma comunicação com a misteriosa pessoa que vai ler. Ela aprende, desde cedo, que palavras escritas são um caminho válido para transmitir pensamentos e emoções.

Penso nessas cartas de solidariedade ainda como um movimento de resistência ao desejo gratuito de atacar que anda dominando certos setores da sociedade. Eu as vejo como um cobertor invisível de afeto, que adorna as doações como o embrulho para presente que ninguém se preocupou em fazer porque não precisa neste momento. Há uma função terapêutica nisso tudo porque escrever cura quem escreve e quem lê. Isak Dinesen, uma escritora dinamarquesa nascida no século 19, escreveu que “todas as mágoas são suportáveis quando fazemos dela uma história”.

 — Foto: Ana Paula Alcântara
— Foto: Ana Paula Alcântara

Se você não souber mais como ajudar, escreva. Escolha as palavras mais bonitas que aparecerem nas prateleiras da sua mente e envie numa carta. Se você também olha para a janela e vê águas que baixam muito devagar, se você não sabe mais lidar com tanto estresse por tentar ajudar e se sentir incapaz, escreva.

Às vezes, quando o mundo se mostra instável e as pessoas hostis, a escrita encarna um tipo de telhado que nos protege das intempéries e de onde tudo podemos observar, a salvo.

Fonte: valor.globo.com