A proposta de criação do Museu e Memorial do Césio-137 deu mais um passo importante na Câmara Municipal de Goiânia. O projeto de lei, de autoria do vereador Lucas Kitão (Mobiliza), recebeu parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e agora segue para apreciação em primeira votação no plenário.
A iniciativa busca preservar a memória de um dos episódios mais marcantes da história de Goiás e do Brasil: o acidente com o Césio-137, ocorrido em setembro de 1987, considerado o maior desastre radiológico do mundo fora do ambiente de uma usina nuclear.
Segundo o autor da proposta, o objetivo é criar um espaço permanente de reflexão, homenagem e aprendizado, reunindo informações históricas sobre a tragédia, seus impactos sociais e a atuação dos profissionais que trabalharam no atendimento às vítimas.
Projeto prevê espaço educativo e de preservação histórica
De acordo com o texto, o futuro Museu e Memorial do Césio-137 deverá contar com áreas destinadas à exposição de documentos, registros históricos e conteúdos educativos, além de espaços voltados à homenagem das vítimas do acidente.
A proposta também prevê que o local funcione como um centro de difusão cultural e educacional, recebendo estudantes, pesquisadores, universidades e visitantes interessados em conhecer os fatos que marcaram a história da capital goiana.
Na justificativa do projeto, Lucas Kitão destaca que o episódio deixou marcas profundas na população, provocando consequências humanas, sociais e psicológicas que ainda repercutem décadas depois. O parlamentar argumenta que, além do sofrimento causado pela contaminação, a tragédia também gerou estigmatização e desinformação, ao mesmo tempo em que revelou exemplos de solidariedade e dedicação de profissionais da saúde, bombeiros, militares e cidadãos envolvidos no socorro às vítimas.
Acidente marcou a história de Goiânia
O acidente radiológico teve início após o manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado nas instalações do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. A cápsula contendo Césio-137 acabou sendo levada para um ferro-velho localizado na região central da cidade, onde a substância radioativa foi manipulada e disseminada.
O episódio atingiu direta e indiretamente mais de mil pessoas. Quatro vítimas morreram em decorrência da exposição direta ao material radioativo, que continha cerca de 19 gramas da substância.
O desastre mobilizou autoridades nacionais e internacionais e se tornou um dos casos mais estudados do mundo na área de segurança nuclear e resposta a emergências radiológicas.
Goiânia não possui memorial dedicado à tragédia
Atualmente, Goiânia não conta com um espaço específico voltado à preservação da memória do acidente. Os locais onde ocorreu a contaminação receberam tratamento e descontaminação ao longo dos anos, restando apenas referências históricas ao episódio.
O principal centro de preservação da história do acidente está localizado em Abadia de Goiás, onde foram armazenadas mais de seis mil toneladas de rejeitos radioativos em estruturas de concreto construídas dentro do Parque Estadual Telma Otergal, às margens da BR-060.
No município também funciona o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), vinculado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), responsável pelo monitoramento dos rejeitos e pelo desenvolvimento de pesquisas relacionadas à radioatividade e ao meio ambiente.
Para o vereador, a criação de um memorial em Goiânia permitiria que a própria cidade mantivesse viva a memória de um acontecimento que marcou sua trajetória. Como referência, ele cita o Museu e Memorial do World Trade Center, em Nova York, criado para preservar a história das vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001.
Proposta retoma discussão iniciada há mais de uma década
Esta não é a primeira vez que a Câmara debate a criação de um espaço dedicado à memória do Césio-137. Em 2011, um projeto apresentado pelo então vereador Túlio Maravilha (MDB) propôs a instalação de um museu na Rua 57, no Centro de Goiânia. A matéria, no entanto, acabou sendo arquivada e não avançou.
Diferentemente da proposta anterior, o texto atual não define um endereço específico para a implantação do memorial. Caso seja aprovado pelo Legislativo e posteriormente sancionado pelo Executivo, caberá à Prefeitura de Goiânia definir a área onde o equipamento cultural será instalado.
Com o parecer favorável da CCJ, a matéria segue agora para análise dos vereadores em plenário, etapa decisiva para que o projeto avance na tramitação legislativa.
