Entre rezas e votos

Por Charles Valente

Vamos para a Romaria da Lapa dona Senhora! Era assim que os romeiros chamavam Ana Rodrigues, mais conhecida como Dona Senhora, primeira-dama de Nossa Senhora Santana da Posse, esposa do então prefeito Nestor Balduíno de Souza. Ouviam de pronto a resposta brincalhona e jocosa cheia de filosofia popular: “Boa romaria se faz, quem não sua casa se acha em paz!” Era uma espécie de alerta para não haver excessos. Depois como toda a comunidade, encilhavam suas montarias e rumavam para a Terra Ronca para cumprir seus votos e suas devoções anuais.

As festas populares, folclóricas e religiosas sempre foram um termômetro preciso para medir a saúde moral, cívica e religiosa do interior do Brasil e neste vale do Paranã não foi diferente. Era através das manifestações populares que coronéis, padres e políticos monitoravam seus currais eleitorais e mediam o poder aquisitivo de sua gente. Um frango arrematado no leilão da quermesse era sinal de status e devoção. Além do tempero caprichado das beatas o felizardo ainda levava a benção do vigário, o olho gordo do vizinho e a admiração do coronel.

Festa do Divino, Folia de Reis, barraquinhas, quermesses, terços, leilões, fogueiras, novenas e tantas outras festas herdadas do paganismo e adaptadas ao cristianismo, faziam e ainda fazem a fé quente e a doma do povo à espera da redenção prometida pelo Jesus bíblico, católico e compassivo.

Uma das manifestações culturais mais populares e cheias de esplendor: assim são as tradicionais “Cavalhadas”, evento realizado em Goiás há mais de 200 anos, desde que foram trazidos para a então Província de Goiaz, no século 18. O primeiro registro é de 1751, na cidade de Luziânia (então Santa Luzia).

Instituídas pela rainha Isabel, de Portugal, motivada por novos conflitos religiosos, as cavalhadas representam a luta entre os cavaleiros vestidos de azul (cristãos) ou vermelho (mouros), armados de lanças e espadas.

Cavalhada é uma celebração portuguesa tradicional que teve origem nos torneios medievais, onde os aristocratas exibiam em espetáculos públicos a sua destreza e valentia, e frequentemente envolvia temas do período da Reconquista.

Esta prática festiva, ritualística, folclórica e política ainda se mostra presente por estas bandas.

Estas manifestações populares, fortaleceram de forma decisiva nosso folclore, nossas tradições e nossa cultura, salvando assim a nossa história e a nossa etimologia. É bem verdade que de uns tempos para cá, as nossas tradições estão cedendo espaço para ideais ainda mais doutrinários e políticos, porém ainda é uma força tradicional nos municípios do Nordeste Goiano.

Nosso “Correio Elegante” cedeu espaço ao famigerado Whatzapp e o cochichado ao pé do ouvido abriu as portas para as Fake News uma espécie de transgressão do oitavo mandamento informatizado.

Eu de cá, como cantador das coisas da nossa gente, fico que nem Caboré, girando o pescoço e observando nossa arte, nossas tradições e nosso povo mudando.

A prata do meu cabelo e as rugas da minha face, dão testemunho de que eu vi e vivi neste pedacinho do Brasil, chorando e sorrindo com a nossa gente, as mazelas e as alegrias desta terra. Este é nosso canto, a nossa Posse! Uma jovem senhora de 150 anos que ainda traz sua canção liberta, sua mente aberta e sempre alerta, ciente de que: “O novo sempre vem!”

 

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