As cidades têm tamanhos diferentes e desafios distintos. Mas medidas adotadas por cidades consideradas inteligentes podem, além de buscarem beneficiar suas populações, ser inspirações para outros municípios que buscam melhorar a gestão e levar bem-estar aos cidadãos. Curitiba é uma delas. Sempre presente nos rankings globais e nacionais, ela se destaca pelo planejamento urbano, mobilidade e uso de tecnologia e inovação.
“Ela tem o legado do [ex-prefeito] Jaime Lerner, que deixou um planejamento urbano exemplar para a grande maioria das cidades brasileiras”, afirma Paulo Takito, sócio diretor da Urban Systems, que elabora um ranking de cidades brasileiras inteligentes. O uso de tecnologia em favor de seus cidadãos é uma das características de cidades inteligentes. E Curitiba é a primeira do país a criar uma secretaria voltada à inteligência artificial, segundo Dario Paixão, presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação. Trata-se da Secretaria Municipal Extraordinária de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Inteligência Artificial (Sedeia).
O serviço de zeladoria digital é um dos que já utilizam a ferramenta. São 35 veículos da frota da prefeitura e de motoristas de aplicativos equipados com um sensor na suspensão e uma câmera fotográfica no para-brisa interligados a um aplicativo no celular dos motoristas. Ao circularem pelas vias da cidade, registram informações detalhadas sobre as ruas, de forma aleatória ou programada (no caso dos veículos da administração municipal), de buracos à falta de iluminação, por exemplo.
“As informações coletadas vão direto para uma base de dados e a IA identifica o problema e já emite a ordem de serviço para que as equipes da prefeitura possam agir rapidamente”, diz Paixão. “A IA é ‘treinada’ para saber quais são os problemas mostrados pelas imagens e vai catalogando e classificando para tomada de decisão”, acrescenta.
A cidade conta com várias outras iniciativas, que vão de projetos de eletrificação da frota, passam pela operação da chamada pirâmide solar – são 8,6 mil paineis, que perfazem 4,55 MW de potência instalada, capaz de fornecer 30% da energia dos prédios públicos –, e chegam ao Hub de Inovação no Vale do Pinhão. “Fora São Paulo, somos a única cidade com três startups consideradas unicórnios. Isso mostra que a cidade é inovadora”, afirma.
No Nordeste, Salvador lançou, em 2022, o Plano Diretor de Cidades Inteligentes e está fazendo consulta pública para criar uma política de fomento ao uso de drones. O plano tem 57 objetivos e 75 ações que vão orientar, pelos próximos 30 anos, as ações destinadas à transformação urbana e social, seguindo os conceitos de cidade inteligente. Envolve temas como tecnologia, inovação, educação, assistência social e sustentabilidade.
Segundo o secretário municipal de Inovação e Tecnologia, Samuel Araújo, a proposta é tornar mais eficiente e transparente os serviços públicos, por meio do uso de tecnologia. A cada quatro anos, o plano é revisado e as medidas do ciclo seguinte passam a fazer parte do planejamento estratégico da prefeitura, garantindo verbas para a continuidade. Para o primeiro período estão contemplados projetos de VLT, implantação de ônibus elétricos, uma infovia, nuvem urbana e wi-fi público, entre outros.
A infovia deverá estar totalmente pronta e funcionando até o fim de junho, quando atingirá 940 km de extensão em vez dos 800 km inicialmente previstos. “Atualmente, já está disponível em 800 edifícios municipais, incluindo escolas e postos de saúde. E o wifi já é acessado em prédios públicos e em 250 praças e áreas turísticas, como na praça de skate em Stella Maris”, afirma Araújo.
Em relação à consulta pública, o objetivo é posteriormente regulamentar o uso de drones na prestação de serviços. “Salvador tem a maior malha viária de drones do mundo. Há trajetos de até 12 km controlados por software”, declara. Inicialmente, a prefeitura prevê discutir a utilização comercial dos aparelhos no transporte de cargas e para melhorar serviços municipais, como na fiscalização de obras, na segurança e na área da saúde. Em abril, Salvador recebeu a certificação ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas de cidade inteligente.
Em Belo Horizonte, os drones são utilizados no monitoramento do trânsito, na vigilância da cidade, no mapeamento urbano e no levantamento topográfico. A capital mineira também faz videomonitoramento por meio de câmeras – hoje elas são 800 e até o meio do ano o número deverá subir para 1.200, segundo Duarte. Hoje, cerca de 1.000 dos 1.400 serviços oferecidos pela prefeitura são digitais.
A capital mineira possui há sete anos o programa Belo Horizonte Cidade inteligente. “O objetivo é tornar a cidade mais responsiva aos desafios da urbanização”, diz Duarte. Para ele, as respostas devem ser potencializadas pelo uso da tecnologia, pela inovação e pela sustentabilidade. E também focando em ações sociais, como as de segurança alimentar, que envolve alimentação saudável, restaurantes populares, alimentação nas escolas, além de um conjunto de 56 hortas urbanas.
